Encontrando o ritmo da constância
- Taline Pontes
- 26 de fev.
- 1 min de leitura

Montevidéu, 26/02/2026
Carregava uma inveja enrustida de pessoas neurodivergentes desde a infância. Da ordem que seus cérebros obedecem. Das rotinas enquadradas. Das preferências que se mantêm com os anos. Talvez uma linha reta trouxesse abrigo a uma garotinha de mente caótica.
Convivi com um familiar que reprisou o mesmo dia durante toda a vida. De domingo a domingo, dormia e despertava à mesma hora, comia as mesmas refeições, trabalhava no mesmo lugar, usava as mesmas roupas. Tudo nele era esperado, inclusive seu interesse por mapas e memorização de ruas. Apesar de nunca ter viajado.
Cresci com um exemplo rígido de repetição. Uma medida inalcançável. Especialmente quando, ciclicamente, os hormônios sequestram o controle do seu corpo. Ditam quando e o que comer, quais emoções serão expressas, quantas partes do corpo sentirão dor. Tudo isso sob um cansaço intermitente e uma cabeça dispersa.
Nunca consegui que meus dias fossem iguais. E a frustração me fazia sentir incapaz. “Como vou conseguir alguma coisa se não tenho constância?”
Um dia uma das minhas referências me disse que admirava minha disciplina. Foi um elogio espontâneo, mas não me atravessou. Na época, eu buscava um eixo. Encerrava o que já não me cabia, abria novos caminhos. Ela via em mim justamente o que nela faltava. A cota de persistência dela estava toda absorvida em dietas e exercícios.
Hoje enxergo o que me foi dito. Minha constância não exige que eu seja uma régua. Sou um compasso. Alguém que não age igual todas as semanas, mas que se mantém presente ao longo do tempo. E assim sigo traçando meu próprio ritmo.




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