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Encontrando o peso que ignorava

  • Foto do escritor: Taline Pontes
    Taline Pontes
  • 19 de fev.
  • 2 min de leitura

Carro cinza antigo, modelo Fusca, visto de trás em uma rua. O veículo tem o número 53 pintado na lataria e uma faixa azul, branca e vermelha no centro. A rua é cercada por árvores altas, postes e algumas construções simples e o maor ao fundo, com o céu claro e levemente celeste. A cena transmite sensação de nostalgia e tranquilidade.


Montevidéu, 19/02/2026


— Mãe, acho que vou desmaiar — disse, com a visão já turva. 

— Come que passa — respondeu, sem mover os olhos da televisão.


Cena repetida na minha infância. A criança que dava trabalho. Comer exigia fome ou desejo. Faltavam os dois. Na adolescência, descobri os excessos. O açúcar e a gordura tornaram-se abrigo. O consumo expandiu meu apetite. Uma mistura de alívio e culpa habitava minha mãe. Ao menos não precisava mais me vigiar.


Passei a acreditar que comer representava uma vitória. Sem me privar, ingeria apenas o que me apetecia. Até perto dos meus trinta anos, jantava uma pizza grande inteira, com refrigerante e sobremesa, ao menos duas vezes na semana. A balança mostrava o número de sempre. O colesterol podia ser alto, mas a preocupação, baixa. 


Não fui o tipo de adolescente que gostava de biologia. Ou de escola. Cresci sem perguntar para que serviam os alimentos. Nem médicos, nem histórico familiar, nem exames alterados me convenceram da insustentabilidade dos meus atos. Foi a balança. Eu seguia a mesma. A cada virada de ano, ela dizia o contrário.


Descobri tarde que ter um corpo é diferente de saber conduzi-lo. Como um carro, a compra deveria ser suficiente, mas não. Revisão, cuidado, abastecimento semanal. E no combustível reside uma escolha ignorada entre desempenho e desgaste. 


O automático simplifica. Pensar, pesa. A fruta, por si só, deixou de bastar. Agora precisa ser combinada. A lógica do permitido e do proibido já não orienta minhas decisões. Cada prato pede presença. Preparo. Tempo. E ainda há exercícios. Cinco vezes por semana. Entre choro, resistência e recaídas, sigo. Nem sempre consigo fechar meu dia como gostaria, mas já não parto do mesmo lugar.


 
 
 

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