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Encontrando o que não falta

  • Foto do escritor: Taline Pontes
    Taline Pontes
  • 12 de fev.
  • 2 min de leitura

Atualizado: 12 de fev.

Ámbar deitada no tapete da sala, com o corpo relaxado e as três patas visíveis, apoiando-se com naturalidade. Ao lado dela, uma tartaruga de pelúcia parcialmente abraçada pelo focinho. A luz suave entra pela janela e ilumina seu pelo dourado, criando uma cena tranquila e doméstica.

Montevidéu, 12/02/2026


As pessoas não entendem a minha surpresa quando insistem em falar comigo ao me ver passeando com Ámbar. Como mãe de pet, acho-a a mais linda que existe. Carinha doce, pelo dourado macio, temperamento tranquilo. Porte médio, peluda até o rabo, que quase funciona como uma pata a mais. Não gosta de abraço, mas tolera meus excessos de afeto até eu me dar por satisfeita.


Passa o dia estirada, não destrói nada, administra a casa com mais senso de ordem do que nós. Quando esquecemos o horário do passeio ou da ração, avisa com resmungos delicados. Se me distraio depois de colocar a comida na mesa, chama-me de volta. Não posso passar muito tempo no celular ou na televisão, que reclama. Se trabalho horas sem pausa, encosta o focinho na minha perna e comunica que é hora do intervalo.


Tem personalidade. Ofende-se e demonstra. Certa vez saímos e voltamos apenas para deixar uma caixa de ovos. Nem chegamos a cumprimentá-la. Colocamos no banco da entrada, aquele que deveria servir para calçar os sapatos, mas acabou virando depósito. Ámbar empurrou a caixa o suficiente para retirar um único ovo. Depois o depositou intacto no tapete. Recado dado.


Aprendeu a ser seletiva. Nem todos podem tocá-la. Fareja intenções. Com alguns, permite um carinho breve. Tudo, no entanto, é negociável. Nada a mobiliza mais do que comida. Tenho certeza de que nos trocaria por qualquer pedaço de carne de segunda.


No parque, parece sociável. Circula entre rodas de chimarrão, cerveja ou cigarro como quem cumprimenta vizinhos. Por trás da simpatia há uma ladra sutil, atenta às oportunidades. Terror dos piqueniques, rouba sanduíches com precisão silenciosa enquanto os participantes se derretem com seu rosto dócil.


Entre os pais de cães, é conhecida por tomar a água alheia. Encontra uma vasilha esquecida e bebe com gosto, mesmo quando há fila. Ninguém parece se importar. Nem os cães. Até o alfa mais encrenqueiro a deixa passar primeiro.


Talvez seja pelo seu modo de ser. Na matilha, busca manter a harmonia. Dificilmente revida um grunhido. Separa brigas, defende os injustiçados, guarda mágoas. Quando necessário, coloca limites nos inconvenientes. Tem paciência com os pequenos. Ensina os filhotes a brincar e deixa que ganhem.


Entrega-se fácil aos romances. Seu primeiro relacionamento durou meses. Era comovente vê-los juntos. Corridas desesperadas, abraços, pequenos choros de excitação. Sempre lado a lado no parquinho. Depois, nossas rotinas deixaram de coincidir. No dia em que finalmente nos cruzamos, não houve jeito. Ámbar levou o desencontro para o pessoal e terminou. Foi doloroso ver a tristeza dele. Ali entendi minha mãe, quando eu terminava com algum namorado de quem ela gostava mais do que eu.


Mas nada disso chama tanta atenção quanto a ausência de uma pata. Quase todos os dias alguém aponta, avisa, lamenta. Chamam Ámbar de coitada. Estranham que eu não me comova.


Ela corre. Brinca. Pula. Ama. Rouba sanduíches. Impõe limites. 


Não me parece que lhe falte nada.

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